sábado, 19 de janeiro de 2013

voz


“A escuridão caiu e a lua sem brilho minguava lá no alto, enquanto a brisa vinha na tentativa de secar as lágrimas do pobre cantor sem voz que virou noites velando por uma alma perdida, essa alma agora vagueia na própria dor, sentindo as dores que causou, ouvindo o silêncio que a estapeava. Ao fim do décimo sexto dia, o rouco ouviu o ciciar do vento ao pé do ouvido – trazia um recado da alma; o “amor” de quem sonha e chora por ele. Os ventos, assim como o mar, furiosos e devastadores se apiedaram do grilo verde, o esperançoso, e segredam algumas noites, um beijo ou um abraço que alma lhe mandava.”

O cantor se arrepia.


Me foi cantada essa canção n'uma taberna qualquer, entre uma cidade e outra, beirando o fim do mundo. Pedi ao tocador-contista que terminasse a história, mas ele balançou a cabeça em negativa: “Não há o que cantar. Provável que o grilo tenha morrido de frio ou apenas desistiu”. Diante dele pareci conformada e subi ao quarto para dormir e voltar para casa na manhã seguinte, quando o ocaso tornou-se apenas negrume e o sono me abateu, sonhei...


Ainda não anoitecera totalmente e o céu se coloria ao pôr do sol, no topo de um morro eu o vi com um violino nas mãos fazendo serenata para a lua prateada, cheguei mais perto me escondendo atrás da maior árvore que encontrei e vi seus olhos; vi dor, vi paixão; vi o medo. O corpo descarnado era frágil e as mãos tremiam, o esqueleto oscilava com as lufadas do vento noturno, os pés pregados firmes ao chão e seus lábios descorados mexiam jorrando palavras intraduzíveis. Oh, a ele faltava voz para implorar aos deuses um pouco de comiseração, um aperto me deu no coração.
Pisei num galho seco e ele se virou para o lado, semicerrou os olhos se pondo a andar em minha direção, passos lentos, calculados… Pôs a mão em meu pulso e me puxou a luz do luar, seus dedos se enroscaram firmes me pressionando e de olhos arregalados sussurrou:

“Marisa! Que os deuses sejam bons. É tu mesmo, Marisa”


Esmaeceu em meus braços, dos olhos do cantor lágrimas se libertaram e logo esse perdeu a cor.


Letícia Ribeiro

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