sexta-feira, 25 de outubro de 2013

das mortes

- Você prefere vermelho vinho ou vermelho sangue?
- Para quê?
- A cor de batom…
 - Sangue.
- Ok. E desliga o telefone. Qualquer cor ficaria boa naquela boca, ela só quis conversar comigo antes de nos encontrarmos, ouvir minha voz e assegurar-se de que tudo está indo bem. Chego perto da praça de alimentação e vejo-a parada em frente ao cinema, esperando por mim, quando me vê pisca um olho rapidamente e eu sorrio, pois ela está com a boca pintada de vermelho vinho, nunca tive tanta vontade de beijar alguém quanto neste instante, mas ela está há uns 20 passos longe de mim, então espero. Vem para perto e me cumprimenta com um abraço “Quer fazer o que hoje?”. Compro um maço de cigarro e saímos do shopping.

Caminhamos pelo estacionamento e ela quer saber como anda meu livro depois sorri e tira fotos (de mim, do céu, da rua, dos pássaros, das pessoas na rua…). Acendo um cigarro e sentamos no banco ela me olha e diz que o dia está lindo demais para eu enchê-lo com minha fumaça, dou mais um trago e ela bate uma foto, aproximo meu rosto do dela e sua boca se abre para deixar a fumaça entrar… Nossa neblina agora é mesma. Seu olhar é profundo e eu beijo seus lábios. Quentes. Ela está sorrindo e encosta a testa na minha respirando fundo, beija meu pescoço e agarra meus cabelos “Sempre quis fazer isso”, diz. Minha mão trilha suas pernas enquanto a outra desfaz cachos do cabelo, ela marca meu pescoço com seus lábios vermelhos sentindo minhas mãos apertarem os seios. Estou excitado demais, ela percebe e diz que devemos ir embora dali.

Levo-a para casa e ficamos a sós entre as paredes do meu quarto e seu corpo agora pertence a mim, os seios redondos e a pele morena arrepiada, minha língua correndo todo o corpo trêmulo e sedento de prazer, um corpo sob o meu clamando pelo meu sangue, querendo não só beijos e carícia, mas tapas e mordidas, pela dor do primeiro gozo e eu lhe dou tudo, extasiado pelo toque de suas mãos e sua boca levando-me ao êxtase. No vai e vem de e respiração ofegante ela geme baixinho e sussurra em meu ouvido sacanagens e declarações – ela sabe o que quero ouvir da sua voz e diz tudo sinceramente. Sinto suas unhas rasgando a pele das minhas costas e ela geme uma última vez no ápice de nossa transa, meu corpo esgotado cai sobre o seu, ela enfia os dedos nos meus cabelos e sorri dizendo “La petite mort.”. Morremos da feliz morte de Franz Liszt.

Vou à cozinha em busca de água e ao entrar no quarto a encontro ainda nua, apenas com os óculos no rosto, deitada na cama lendo o manuscrito do meu livro – bati uma foto no instante que ela mordeu os lábios. Não sorri e na boca há apenas rastros quase apagados do batom “Preciso ir embora. Quando você viaja?” Sinto que não há mais razão em ir embora, não tenho mais vontade de fugir, mas respondo “Amanhã à tarde. Eu te levo de volta”. No ponto do ônibus ela se ergue na ponta dos pés me beija uma última vez e vai embora.

Entrando no meu quarto, mais uma vez sozinho, dispo-me das roupas e ao entrar no banho me livro das manchas que ela deixou em meu corpo. Minha mala já pronta espera aos pés da cama e durmo com o cheiro dela nos lençóis, prevendo o caos que a vida me reserva.

                                                                   Letícia Ribeiro  

domingo, 6 de outubro de 2013

estadia

Meu ser sorri feito criança com doce nas mãos, meus olhos não conseguem disfarçar a alegria e minha mente para, deixando o caminho livre para que você entre e bagunce livremente o que demorei um bocado de tempo concertando. Agora você voltou, Clara, chamando-me de “meu bem”, sussurrando as belezas que eu desconhecia e teu cheiro povoa meu quarto novamente, não me lembro o porquê de termos nos separado. Por que razão terá sido?

Dentro de você sou só mais uma canção que serve para povoar o coração inquieto de calmaria, logo você cansa e parte rumo às batidas frenéticas do mundão; dentro de mim você é a poesia indecifrável e eterna amante de voz doce, dentro de mim, meu bem, você é um canto de Camões, faz-me chorar de morder os lábios e amar de doer o coração. Mas você pode voltar, Clara, que eu te aceito sem desconfiança, pois sei que sua viagem não é tão sem rumo, tu volta para mim.

Nosso silencio é pura saudade.

Nossa saudade é apenas tolice. Abraço inutilmente seu corpo sadio em busca de moldá-lo ao meu, você não gosta porque tem medo de querer ficar presa nessa brincadeira de braços e abraços. Eu entendo: passarinho é bicho livre que precisa voar para sobreviver. Contento-me em alimentar meu Passarinho com amor, por vezes meu estômago se contorce, precisa ser alimentado também, pois eu como apenas as suas migalhas, mas teimo e continuo o maltratando. Comendo migalhas.

Estamos na primavera, o ventinho brinca com teus cabelos loiros e me embebeda do cheiro das flores, sorrio com tranquilidade – são tempos felizes, penso -, o céu de nuvens parece recitar os pensamentos do teu coração, olho para o teu rosto e encontro lágrimas; é chegada a hora de partir, não é? Aperto tuas mãos, beijo os nós dos dedos, faço que estou bem... Pode ir, Clara, breve você retorna para dormir em cima dos meus anseios.

Letícia Ribeiro

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

no enlaço do abraço

Beijos cálidos que me cingem
Embalam lembranças em minha Mente
Lançado ao passado agradável e contente
E cantigas agora soam no coração selvagem

Um abraço impassível
Arranca-me dolorosamente do sonho cândido
Meu corpo descobre, combalido
Que o Maldito aperto é incoercível

Fraco, ferido e frígido, em desvantagem
Como de uma anêmona uma presa sou
Toxina e tentáculos tem me paralisado

As Garras assaz finas depois de rasgado
O âmago, dilacerado os lábios, segue Viagem
Bebendo a dor e sorrindo do que de mim restou.

Letícia Ribeiro

eu

Tenho pensado – e escrito - muito sobre o tempo, para ser mais exata, sobre as horas e os minutos que tem sido o algoz da sociedade moderna, nem o bebê no útero tem liberdade, pois nasce com as horas contadas.
            Resolvi dar um basta neste assunto e seguir com minha viagem.

            A vida fora de casa sempre me pareceu libertadora, mas agora, beirando o fim da adolescência, intuo que essa seja uma realidade esmagadora; a cidade é a selva e somos tanto presas quanto caçadores, tentando sobreviver e prosperar. Vivemos tentando conseguir equilíbrio na linha que separa morte e vida - acabei de falar sobre vida. Que sei eu sobre a vida? Quiçá sobre morte! (risos). Aulas de filosofia durante 50 minutos não são de grande ajuda para desvendar sobre ambas quando houve mentes que criaram teorias durante séculos. Ai! Quem sou eu? Estou me descobrindo, creio que estarei nesta missão até o fim.

O medo que me assalta no despertar de cada manhã: como sobreviver à vida? Tento não chorar quando chego em casa, porque choro silencioso dói mais e não há travesseiro  macio o suficiente que consiga confortar, então penso que se fizer uma escolha errada, uma loucura que seja e não aguentar... Como quando meu peito aperta e não consigo puxar o ar para os pulmões. O mundo que criei com páginas de livros e sonhos está desmoronando.

“Deixamos de ser criança quando a razão nos paralisa, quando nos sentimos diretores do filme em que atuamos, olhos externos racionalizando cada gesto”, Humberto Gessinger sempre com a razão. Mas eu estou errada nesta vida. Um ser estranho perdido num mundo solitário.