domingo, 31 de março de 2013

sua escova de cabelo
sobre a cama
os fios dourados repousados
no travesseiro
seu perfume
na estante
e seu cheiro na camisa
acabou-se num instante
o telefone não toca
desde
desde
diabos!
desde semana passada
passado
quando você foi
passado
você está no passado
os beijos
as brigas
as transas
passado
quero morar no passado
porque cada passo
é caminho para um cadafalso
passado
um passo em falso
e somos passado

Letícia Ribeiro
     Sempre que fecho os olhos escuto a voz dela, sussurrante e inacreditavelmente fria. Fria como o vento numa madrugada de inverno, tão fria que machuca meus ouvidos e gela as mãos. Ela está em todos os lugares, em todo maldito canto dessa cidade imunda, vejo suas poses nos manequins do outro lado da vitrine, vejo seu sorriso no rosto grotesco da atendente do banco, confundo seus gemidos com os da minha amante, sinto seu perfume deixado no ar, feito gás tóxico, que me engasga e sufoca.

     Eu grito “porra, Clara!, sai de mim, mulher”, mas ela não ouve, permanece, continua me sondando e provocando. Memórias! São apenas lembranças... Algo em mim que não a deixa ir de vez, que está guardando cada gotinha do oceano que é Clara (ou era), isso é inútil, é desprezível e me apavora, pois pouco a pouco o tempo a devora e só restam visões embaçadas e mudas, como nos filmes de Chaplin. Seria cômico se não fosse trágico.

      Clara me consome.  Sinto-me velho e cansado, meus ossos rangem feito engrenagem velha. Clara está morta e agora é como se eu também estivesse – ela está presente, aqui comigo, e quer meu sangue. Ela me queima vivo em sua fogueira e dá gargalhada e dança como se meus gritos fossem música. É assim que Clara ama. Na dor.

Letícia Ribeiro

segunda-feira, 25 de março de 2013

Breve

      Cheiro de primavera recém chegada. Esse ar de flor que se abre depois de um longo inverno quando acorda. Mas só em alguns dias da semana– quintas e sábado, em especial. Nessas manhãs eu acordo cedinho para poder beijar-lhe os olhos. Castanhos e grandes. Ela sorri então se levanta e anda até o banheiro. Quando volta, já não é a mesma mulher que havia acordado ao meu lado e me dera um sorriso sonolento.

      Chego à conclusão: apaixono-me fácil, desapaixono-me rapidamente, mas não a deixo, pois certas manhãs ela me faz sentir o melhor sentimento que eu poderia conhecer. A paz de um céu azul e a tranqüilidade das nuvens, o toque de suas mãos como o sol das seis esquentando a pele, a maciez do cabelo entre minhas mãos – “deixa eu perder meus dedos nos teus cabelos”. Mas acaba.

      Às vezes fico à porta do banheiro. Observando a água escorrendo pelo seu corpo, levando o suor noturno - para o ralo a essência que brota de sonhos! Ela pega a toalha e não me sorri. Veste-se apressada. Não toma café da manhã em casa. Corre para a cidade acinzentada, odor repugnante de fumaça e… Acabou-se. Ela não me pertence, não é mais inspiradora de poesia nem digna de observação. Faz parte da massa. Faz parte da população absoluta, pesquisas sociais, dados estatísticos, some em meio a tantos Joãos e Marias.

      Amor que dura o tempo de uma rosa.

      Breve… como uma brisa gostosa que beija o rosto ao fim de um dia ruim.

      Aos sábados tomo-a para mim. Por um dia inteirinho – quando dou sorte, estendemos até o fim de domingo. Longe das buzinas, televisões, anúncios e desconhecidos. Então cheiro seus cabelos e sua pele… Exala sonho, essa mulher!

      Ela é o éter que me arremessa para outro mundo. Seus olhos piscam “SAÍDA DE EMERGÊNCIA” e eu mergulho no que quer que seja feito esse mar que é amá-la.

      Letícia Ribeiro