domingo, 31 de março de 2013

     Sempre que fecho os olhos escuto a voz dela, sussurrante e inacreditavelmente fria. Fria como o vento numa madrugada de inverno, tão fria que machuca meus ouvidos e gela as mãos. Ela está em todos os lugares, em todo maldito canto dessa cidade imunda, vejo suas poses nos manequins do outro lado da vitrine, vejo seu sorriso no rosto grotesco da atendente do banco, confundo seus gemidos com os da minha amante, sinto seu perfume deixado no ar, feito gás tóxico, que me engasga e sufoca.

     Eu grito “porra, Clara!, sai de mim, mulher”, mas ela não ouve, permanece, continua me sondando e provocando. Memórias! São apenas lembranças... Algo em mim que não a deixa ir de vez, que está guardando cada gotinha do oceano que é Clara (ou era), isso é inútil, é desprezível e me apavora, pois pouco a pouco o tempo a devora e só restam visões embaçadas e mudas, como nos filmes de Chaplin. Seria cômico se não fosse trágico.

      Clara me consome.  Sinto-me velho e cansado, meus ossos rangem feito engrenagem velha. Clara está morta e agora é como se eu também estivesse – ela está presente, aqui comigo, e quer meu sangue. Ela me queima vivo em sua fogueira e dá gargalhada e dança como se meus gritos fossem música. É assim que Clara ama. Na dor.

Letícia Ribeiro

Nenhum comentário:

Postar um comentário