O sol reservou um tempo para pensar e deixou o frio tomar conta, o vento gélido que sopra mais forte à noite me corta e estapeia, esses velhos ossos doem e já estou a bater os dentes. Os anos pesaram sobre mim e agora sou um velho carente que se esquenta com sopa e cobertas, mas, o que dizer, eu bebi o que pude, fodi com quem quis e vou morrer com o cigarro na boca.
Vinte e quatro anos atrás, quando jovem, caí na besteira de me apaixonar. Sorrir por lembrar a voz dela era tão… tão novo e ridículo que gostei. Gostei de sentir ciúmes, de provocar para briga e depois acabar com a raiva dela na cama – ela era boa nisso. Admito, não imaginava como seria viver sem beijar aquela boca, mas, bem, eu devo ter sufocado ela ou não era tão bom de cama, pois, chegar em casa e ver a mulher que você ama na cama com um modelo de comercial de cuecas é, no mínimo, uma puta de visão do inferno. Mas não sou violento, tranquei – não sei como – os dois para fora do apartamento, nuelos, no frio e fui beber.
Segunda pior cagada que cometi – a primeira foi querer bem aquela puta – enchi a cara e fodi com todas que me abriram as pernas. Fiquei nessa vida por oito anos, eu era bonito, rico e não muito seletivo, mas não se pode ter tudo. As drogas acabaram com meu dinheiro e minha profissão, eu estava insano, as toxinas mancharam minha beleza e virei um comedor de lixo. Que vida! Sucumbi nos vícios e adoeci terrivelmente. AIDS! Me passaram a puta de uma AIDS. Minha família me trancou nessa clínica de reabilitação, onde moro há alguns anos. Curado de umas drogas, dependente de outras. Para quê? Não tem cura.
Esse papel é um maldito papel de pão, e uso uma caneta falha, não tem importância, é um aviso e deve ser lido. Vou indo embora, odeio esse quarto velho e a cama range sempre que me viro, sinto falta das mulheres, dos jogos de cartas, sinto falta da mulher que amei. Comprei uma passagem para uma cidade que não conheço ninguém, chegando lá compro umas camisinhas na farmácia e alugo um quarto, com o dinheiro que roubei da caixinha de vocês vou fumar, beber e transar. Quando nada mais restar, bem, eu morro sozinho, nu na banheira.
Letícia Ribeiro
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