Nesses dias quentes, sento-me na varanda de casa e observo meus netos com suas vidinhas cibernéticas, são felizes em suas próprias concepções de felicidade, claro. O engraçado é que quando lhes conto da minha infância – com ares saudosistas, ah, “saudades que tenho da aurora da minha vida” – as crianças me lançam olhares incrédulos, curiosos e maravilhados, atrevo-me a dizer, como se minhas peripécias infantis fossem aventuras lidas de um livro. Veja só, leitor, a graça está no fato de elas adorarem meus causos, mas ainda assim se limitarem a tela digital – entramos em um paradoxo, não? Imagino-os alguns anos mais a frente odiando a relação familiar – e o mundo – as garotas chorando por paixões e os rapazes com um olho roxo por causa de brigas na rua. Será que vou viver para poder dar conselhos (que serão ignorados) a eles? Por mais que eu lhes diga que o que eles chamam de amor seja… Oh, talvez seja mesmo amor, mas pode ser só gostar (sim, sim, é um sentimento novo que parece consumir e queimar a cândida pele deles, mas amor não é).
Por favor, quando você chegar à velhice terá muito tempo a sós com seus pensamentos e “cabeça vazia, oficina do diabo”, verá como a mente transborda na letargia em que a velhice nos põe, os conceitos pesam e é o maldito amor que nos inferniza nesse labirinto implacável e enfado. Aliás, (aproveitando o embalo vou desabafar) não sinto prazer nenhum em olhar para minha Isaura, nenhum. Eu a amei há dezoito anos, doía-me não a olhar e parecia que mesmo fazendo amor eu nunca estaria perto dela o suficiente, como se ainda não fosse o suficiente para… para… ah, não sei. Sentia-me incapaz de amá-la (risos). Quando eu dizia que estava na minha hora de ir, ela me agarrava as duas mãos “fica até o sol despontar, Armando, fica para amar-me mais um pouco”, e eu ficava, perdia a hora, o equilíbrio e minha camisa exalava perfume de sândalo após partir.
Não, amigo leitor, não pare de ler, não serei melancólico nem contarei casos de amor, é uma reflexão minha apenas. O amor… bem, você o conhecerá por si só e tirará suas próprias conclusões; loucura, luxúria, não importa, qualquer outro tentará lhe mostrar isso – como se fossem capazes, cada qual sente em intensidades diferentes, somos excêntricos, credo! Perdão – veja como o amor nos retém para si – não me demorarei mais nesse parágrafo, se você se sentir enjoado, levante-se e vomite, pois é o que fazemos com o amor, com a decepção, solidão, a raiva; vomitamos, mijamos, cagamos aquilo que nos mata (expelimos o veneno).
Ah, por Deus! Isaura desempacotou o toca discos e agora toca “The Monkes” e ela se aproxima sorrindo, balançando o vestido e me chamando (estará ela louca?). “Largue essa caderno, homem!”, ela me chama a atenção, “Isaura, meu bem, não.” Ela sorri compassivamente, “Tenho certeza de que você ainda sabe dançar, meu amor, vem” e me estende as mãos. Não me odeie nesse momento, amigo leitor, mas eu sou humano e não pude me calar ao responder-lhe “Isaura, eu não te amo mais”, assim saíram essas palavras, de forma indolente feito flechas – e acertaram o coração de minha Isaura. Doeu em mim, quando me apercebi, mas não mais do que nela, seu sorriso incrédulo e o aperto que ela me dava nas mãos ficou suave até que ela largasse e os olhos se fecharam e voltaram a abrir me virando as costas ela se foi – senti ódio de mim ao perceber que ela enxugava lágrimas.
Ela não me mandou nem quis ir embora. Ela… ela… continuou vivendo, sabia que não havia como começar vida nova e encontrar alguém que não fosse intratável como eu. Quebrei os juramentos que fiz para mim quando jovem, nunca ser as lágrimas que ela derramasse (risos), oh! Quem sou eu para falar da vida? Eu que prometi ao leitor que essas não seriam linhas melancólicas.
Letícia Ribeiro, descumprindo a promessa de não ser spleen e escrever sobre amor
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