Neva. Neva em mim.
O gelo cobre a janela, mas aqui dentro a lareira nos esquenta. Mamãe está a dormir, dou graças a isso, ela não sente tanta dor quando submersa em sonhos. Oh, mamãe! Estamos as duas afastadas, a uma distância que a insanidade nos impôs, isso não merece ser chamado de vida, uma pessoa sempre ativa e agora é limitada a camisa de força, sendo chamada de louca.
Enquanto escrevo, mamãe ressona tranquila – normal eu diria até. Ontem ela me perguntou quem eu era. “Ora, sou Rox, sua filha”, respondi. “Tome tento, louca. Tens minha idade” respondeu e saiu empertigada. Mas hoje, para grande alegria, ela amanheceu e foi para as suas rosas no jardim, cantarolava e sorria, conversava com as rosas e me olhava maviosa. Céus!, como fiquei feliz. Sentei e admirei-a, como se estivéssemos de volta aos meu dez anos de idade, com mamãe e papai rindo de mim e das tagarelices sem sentido algum.
O sol se pôs, naturalmente, e como foi egoísta, levou minhas lembranças e a calma de minha velha mãe, foi terrível presenciar a matança da vida – dela e do jardim, agora em pedaços – mamãe simplesmente endureceu e uma sombra desceu sobre seus olhos, gritou para mim, para as flores, pisoteou-as e praguejou a mim. Tirou as roupas e correu para longe. Só fui encontrá-la quando a noite só se fazia clara pela lua, ela estava deitada no chão batido, onde papai fora enterrado, lá ela conversava com ele, chorava por ele. Triste de se ver. Quando a trouxe para casa estava exausta e logo dormiu.
Agora a neve cai, pela primeira vez nesse ano, como a vida é rápida, não espera por ninguém, ou se vive ou morre, sem nada a ter realizado de fato, de sonhos perdidos. Morremos e continuamos a respirar, sem tomar conta da cova que está a dois passos de distância, da terra que clama por consumir teu corpo sofrido, a mesma terra que nos comerá a carne e esse coração insípido. Céus! Pobre de quem ri agora e chora só. Pobre de quem respira e não vive.
Neva dentro de mim.
Letícia Ribeiro
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