sábado, 19 de janeiro de 2013

fuga


Saí do meu quarto na ponta dos pés, fui andando quietinha em direção a cozinha. O relógio da sala fazia TIC TAC. Abri a geladeira e peguei um pote de sorvete de limão, fui para a sala e abri um livro que estava em cima da mesa, um romance, mas eu queria ação. Fechei o livro e liguei a televisão, é claro que não tinha nada de interessante, já passava das 2 horas da manhã e meu sorvete estava quase ao fim. Bom, pelo menos agora minhas pálpebras estavam pesadas e minha cabeça pendia para trás, dormi ali mesmo no sofá.

Acordei parece que 20 minutos depois, meu corpo todo doía, estava zonza, meio aturdida. A casa estava tão escura, silenciosa, nem o relógio com seu TIC TAC pude ouvir, de repente começou a cair pedras no telhado. Não, não eram pedras, chovia granizo e ventava forte, acho que ouvi gritos lá fora, fui abrir a porta, meio indecisa ou era medo do que ia acabar vendo lá fora. Destranquei a porta e abri. Fiquei meio estarrecida, sem saber se voltava para dentro ou corria para fora. Achei estar delirando, pois não havia chuva, nem terra molhada ou vento, mas sim um sol que ofuscou meus olhos, o céu estava tão azul – um azul que nunca vira antes – cores e pessoas estranhas de rostos sorridentes, cantantes. Que estaria havendo? Festa.

Eu podia sentir a vibração deles, estavam felizes, de verdade, me pegaram pelas mãos e me levaram para o meio do jardim, todos me olhavam ansiosos, esperavam por algo. Mas o que? Não fazia ideia se aquilo era em minha casa mesmo, um medo súbito veio crescendo dentro de mim, me apavorei, arregalei os olhos e tentei fugir, não importava para onde, mas eu tentava me esconder. Senti alguém tocar meu braço e me chamar, não distingui pela voz, mas foi como se eu pudesse confiar naquela pessoa, eu tinha que sair dali. Segui a pessoa – na verdade, era um homem, cabelos castanhos e pareceu ser seguro do que fazia – íamos nos esquivando das pessoas e corremos pela rua, o sol já tinha ido embora, agora só restavam alguns raios de luz e a iluminação fraca dos postes. Nos escondemos atrás de um muro, na quarta quadra que corremos, estava tudo em silêncio. Ele parou de vigiar a rua e olhou para mim, nos meus olhos e descendo para os lábios, estava sério. Disse num sussurro: “Não deveria estar aqui. Venha, vou te levar para casa.” Admito que fiquei pensativa quanto ir para casa, apesar do susto eu queria ficar por lá, com ele. 
- Mas se eu for, nos veremos de novo? - perguntei
- Um dia a gente se encontra, nem precisa se procurar, eu te encontro – ele disse se afastando, seus dedos se desenrolando dos meus.
As luzes se apagaram e cai sem forças no chão, tentei gritar, mas não tinha voz. Apaguei. “Acorde, Rox, acorde!” escutei a voz de minha irmã. “Estamos atrasadas”. Estava deitada no sofá, então eu levantei, eram 7h. Era um sonho.

Me arrumei como todos os dias e fui para minha aula. Quando saí tive vontade de andar um pouco antes de voltar para casa, fiquei parada na banca de jornal enquanto esperava o ônibus chegar, estava cantarolando a canção que ouvi no sonho. O rapaz da banca parou o que fazia e olhava para mim com surpresa. 
- Desculpe... eu te conheço? – perguntou
Eu levantei o olhar e sorri feliz ao reconhecer aquela expressão, respondi "Só se for no mundo dos sonhos".
Ele soltou uma gargalhada e veio até mim, pegou minhas mãos e perguntou:
- Quer fugir daqui?

Letícia Ribeiro

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