domingo, 20 de janeiro de 2013

Nem elas nem você

Oh, darling

                 Ela umedeceu os lábios, como quando se preparava para falar, mas não me retrucou, o momento se resumiu aos seus olhos fixos em mim. Negros olhos oblongos cheios de reprovação que atingiram até as minhas vísceras, não sustentei o olhar mais que uns segundos e fracassei em dizer qualquer coisa, balbuciando um “des... desculpe-me”. E tremia. Nenhuma palavra foi dita: eu fui incapaz e ela sabia o efeito que seu olhar causava.  Ela estava decepcionada e eu tinha acabado de ser fuzilado. Ambos fomos impiedosos.

If you leave me

                Fui embora, claro. Incapaz e acovardado fugi da presença daquela mulher que no momento me deixou feito um cão esganiçado. Uma mulher incrível, apesar de agora não me recordar muito bem de seu nome, algo com o som de “i”. Alicia. Clarissa. Cecília. Ou Marília? O vento frio, do lado de fora do quarto que fizemos amor pela primeira vez, sibilava, um sopro triste e torturado, mas naquele momento, para nós, tudo era fogo, vermelho e crepitante. Eu não sabia -idiota como era - que o fogo é capaz de derreter o que quer que esteja ao seu alcance. Foi o que ele nos fez.

I’ll never make it alone

                Como o fogo, tudo correu rapidamente. Duas semanas depois da primeira transa disse que a amava, ela nada respondeu e continuou a me observar enquanto me vestia, quando eu finalmente abri a porta ela correu para fechá-la a me beijar e arrancar a camisa soltando os botões, depois do orgasmo sussurrou vagarosamente com sua voz de seda “acho que também amo você”. Esse pode ter sido nosso começo ou fim, talvez ambos, mas agora, pensando bem, pode-se dizer que foi a melhor manhã que já tive.  

Believe me when I beg you

Eu era carne podre. Sem rumo. Sem jeito. Não comia, só bebia. Preferia prostitutas por não serem exigentes e por sussurrarem mentiras insidiosas e obscenas, estava pronto para morrer. Até que a vi olhando para mim, sentada sozinha no bar, só vi ébano e sorriso, nada mais. Paguei-lhe uma dose de vodka com red bull e bebi para acompanhar. Não terminamos aquela noite na cama. Fizemos amor 27 dias depois dessa dose.

Don’t ever leave alone

                Hoje não bebo mais vodka e tampouco durmo com prostitutas. Achei ter encontrado forma melhor de me matar. Quem diria?  Morrer de amor. Fugir desse torpor embriagado e drogado para cair nos braços de uma mulher com um espírito saboroso. Mas o “fogo” incendiou a casa toda e nos deixou desabrigados. Eu sou o culpado, por ter deixado a vela acesa próxima demais das cortinas - metáfora ínfima para o que aconteceu, a verdade do que fiz é uma lembrança tão borrada e falha que me aborreço ao tentar lembrar, há algo em minha cabeça que me sentencia culpado. Culpado. Culpado! Não tento negar nada, mas também não sei o que fiz. E faltou coragem de perguntar a ela o quão cretino fui. O pior do “morrer de amor” é que continuo vivo.

                                                                                                                           Letícia Ribeiro

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