Oh, darling
Ela umedeceu os lábios, como quando se preparava para falar, mas
não me retrucou, o momento se resumiu aos seus olhos fixos em mim. Negros olhos
oblongos cheios de reprovação que atingiram até as minhas vísceras, não sustentei
o olhar mais que uns segundos e fracassei em dizer qualquer coisa, balbuciando
um “des... desculpe-me”. E tremia. Nenhuma palavra foi dita: eu fui incapaz e
ela sabia o efeito que seu olhar causava.
Ela estava decepcionada e eu tinha acabado de ser fuzilado. Ambos fomos
impiedosos.
If you leave me
Fui embora, claro. Incapaz e
acovardado fugi da presença daquela mulher que no momento me deixou feito um
cão esganiçado. Uma mulher incrível, apesar de agora não me recordar muito bem de
seu nome, algo com o som de “i”. Alicia. Clarissa. Cecília. Ou Marília? O vento
frio, do lado de fora do quarto que fizemos amor pela primeira vez, sibilava,
um sopro triste e torturado, mas naquele momento, para nós, tudo era fogo,
vermelho e crepitante. Eu não sabia -idiota como era - que o fogo é capaz de derreter
o que quer que esteja ao seu alcance. Foi o que ele nos fez.
I’ll
never make it alone
Como o fogo, tudo correu
rapidamente. Duas semanas depois da primeira transa disse que a amava, ela nada
respondeu e continuou a me observar enquanto me vestia, quando eu finalmente
abri a porta ela correu para fechá-la a me beijar e arrancar a camisa soltando
os botões, depois do orgasmo sussurrou vagarosamente com sua voz de seda “acho
que também amo você”. Esse pode ter sido nosso começo ou fim, talvez ambos, mas
agora, pensando bem, pode-se dizer que foi a melhor manhã que já tive.
Believe me when I
beg you
Eu era carne podre. Sem rumo. Sem jeito. Não comia, só bebia.
Preferia prostitutas por não serem exigentes e por sussurrarem mentiras
insidiosas e obscenas, estava pronto
para morrer. Até que a vi olhando para mim, sentada sozinha no bar, só vi ébano
e sorriso, nada mais. Paguei-lhe uma dose de vodka com red bull e bebi para acompanhar. Não
terminamos aquela noite na cama. Fizemos amor 27 dias depois dessa dose.
Don’t ever leave
alone
Hoje não bebo mais vodka e tampouco
durmo com prostitutas. Achei ter encontrado forma melhor de me matar. Quem
diria? Morrer de amor. Fugir desse
torpor embriagado e drogado para cair nos braços de uma mulher com um espírito
saboroso. Mas o “fogo” incendiou a casa toda e nos deixou desabrigados. Eu sou
o culpado, por ter deixado a vela acesa próxima demais das cortinas - metáfora
ínfima para o que aconteceu, a verdade do que fiz é uma lembrança tão borrada e
falha que me aborreço ao tentar lembrar, há algo em minha cabeça que me
sentencia culpado. Culpado. Culpado! Não tento negar nada, mas também não sei o
que fiz. E faltou coragem de perguntar a ela o quão cretino fui. O pior do “morrer
de amor” é que continuo vivo.
Letícia Ribeiro
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