Nos perdemos no deserto, Rayssa, você nos trouxe para essas dunas quentes de chão árido e agora não sabe como sair. Agora completa quatro horas que estamos caminhando a esmo sem dirigir palavra à outra - orgulho teu, todo teu! -, chegamos noite passada e ficamos bem até pela manhã, quando eu te disse que tinha uma vida para tocar você fechou a cara e se pôs a caminhar, te segui, cansada, com fome e sede, te segui para todo canto que seus passos escolhiam.
O sol se escondeu e o ocaso se aproximava quando você girou nos calcanhares e olhou para mim mordendo os lábios “Eu… não sei como”. Evitei rir e jogar na sua cara o que, no fundo, já sabia, apenas continuei caminhando, procurando água ou uma árvore ou uma porta de saída de emergência – melhor, um mapa de tudo!
O deserto enegreceu, um céu de estrelas e lua minguante sobre nossas cabeças, o frio que chegou e ficou, víamos sombras aos redores e sons mais ao longe – murmúrios, na verdade, que chegavam e iam embora – cenas terrificantes, reais, nossos conhecidos com personagens e gargalhadas guturais… Não dormimos nem meia hora, ficamos abraçadas esperando o sol chegar.
Ah, Rayssa, a meu ver não tem saída alguma, entramos pelas frestas e não será por elas que sairemos. Eu me lembro dos argumentos que usou para me convencer, disse “Eu vou saber como sair, quando você disser ‘chega’, nós sairemos de lá”. Como não rir dessas conversas? Olhe como estamos! Eu bem que te avisei que não seria muito agradável, mas você quis porque quis entrar no meu âmago, “ver o que tinha por lá” – pensou que haveria poesia, mulher?!
Vamos morrer aqui, dentro de mim, juntas.
Letícia Ribeiro
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