segunda-feira, 25 de março de 2013

Breve

      Cheiro de primavera recém chegada. Esse ar de flor que se abre depois de um longo inverno quando acorda. Mas só em alguns dias da semana– quintas e sábado, em especial. Nessas manhãs eu acordo cedinho para poder beijar-lhe os olhos. Castanhos e grandes. Ela sorri então se levanta e anda até o banheiro. Quando volta, já não é a mesma mulher que havia acordado ao meu lado e me dera um sorriso sonolento.

      Chego à conclusão: apaixono-me fácil, desapaixono-me rapidamente, mas não a deixo, pois certas manhãs ela me faz sentir o melhor sentimento que eu poderia conhecer. A paz de um céu azul e a tranqüilidade das nuvens, o toque de suas mãos como o sol das seis esquentando a pele, a maciez do cabelo entre minhas mãos – “deixa eu perder meus dedos nos teus cabelos”. Mas acaba.

      Às vezes fico à porta do banheiro. Observando a água escorrendo pelo seu corpo, levando o suor noturno - para o ralo a essência que brota de sonhos! Ela pega a toalha e não me sorri. Veste-se apressada. Não toma café da manhã em casa. Corre para a cidade acinzentada, odor repugnante de fumaça e… Acabou-se. Ela não me pertence, não é mais inspiradora de poesia nem digna de observação. Faz parte da massa. Faz parte da população absoluta, pesquisas sociais, dados estatísticos, some em meio a tantos Joãos e Marias.

      Amor que dura o tempo de uma rosa.

      Breve… como uma brisa gostosa que beija o rosto ao fim de um dia ruim.

      Aos sábados tomo-a para mim. Por um dia inteirinho – quando dou sorte, estendemos até o fim de domingo. Longe das buzinas, televisões, anúncios e desconhecidos. Então cheiro seus cabelos e sua pele… Exala sonho, essa mulher!

      Ela é o éter que me arremessa para outro mundo. Seus olhos piscam “SAÍDA DE EMERGÊNCIA” e eu mergulho no que quer que seja feito esse mar que é amá-la.

      Letícia Ribeiro

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