sexta-feira, 25 de outubro de 2013

das mortes

- Você prefere vermelho vinho ou vermelho sangue?
- Para quê?
- A cor de batom…
 - Sangue.
- Ok. E desliga o telefone. Qualquer cor ficaria boa naquela boca, ela só quis conversar comigo antes de nos encontrarmos, ouvir minha voz e assegurar-se de que tudo está indo bem. Chego perto da praça de alimentação e vejo-a parada em frente ao cinema, esperando por mim, quando me vê pisca um olho rapidamente e eu sorrio, pois ela está com a boca pintada de vermelho vinho, nunca tive tanta vontade de beijar alguém quanto neste instante, mas ela está há uns 20 passos longe de mim, então espero. Vem para perto e me cumprimenta com um abraço “Quer fazer o que hoje?”. Compro um maço de cigarro e saímos do shopping.

Caminhamos pelo estacionamento e ela quer saber como anda meu livro depois sorri e tira fotos (de mim, do céu, da rua, dos pássaros, das pessoas na rua…). Acendo um cigarro e sentamos no banco ela me olha e diz que o dia está lindo demais para eu enchê-lo com minha fumaça, dou mais um trago e ela bate uma foto, aproximo meu rosto do dela e sua boca se abre para deixar a fumaça entrar… Nossa neblina agora é mesma. Seu olhar é profundo e eu beijo seus lábios. Quentes. Ela está sorrindo e encosta a testa na minha respirando fundo, beija meu pescoço e agarra meus cabelos “Sempre quis fazer isso”, diz. Minha mão trilha suas pernas enquanto a outra desfaz cachos do cabelo, ela marca meu pescoço com seus lábios vermelhos sentindo minhas mãos apertarem os seios. Estou excitado demais, ela percebe e diz que devemos ir embora dali.

Levo-a para casa e ficamos a sós entre as paredes do meu quarto e seu corpo agora pertence a mim, os seios redondos e a pele morena arrepiada, minha língua correndo todo o corpo trêmulo e sedento de prazer, um corpo sob o meu clamando pelo meu sangue, querendo não só beijos e carícia, mas tapas e mordidas, pela dor do primeiro gozo e eu lhe dou tudo, extasiado pelo toque de suas mãos e sua boca levando-me ao êxtase. No vai e vem de e respiração ofegante ela geme baixinho e sussurra em meu ouvido sacanagens e declarações – ela sabe o que quero ouvir da sua voz e diz tudo sinceramente. Sinto suas unhas rasgando a pele das minhas costas e ela geme uma última vez no ápice de nossa transa, meu corpo esgotado cai sobre o seu, ela enfia os dedos nos meus cabelos e sorri dizendo “La petite mort.”. Morremos da feliz morte de Franz Liszt.

Vou à cozinha em busca de água e ao entrar no quarto a encontro ainda nua, apenas com os óculos no rosto, deitada na cama lendo o manuscrito do meu livro – bati uma foto no instante que ela mordeu os lábios. Não sorri e na boca há apenas rastros quase apagados do batom “Preciso ir embora. Quando você viaja?” Sinto que não há mais razão em ir embora, não tenho mais vontade de fugir, mas respondo “Amanhã à tarde. Eu te levo de volta”. No ponto do ônibus ela se ergue na ponta dos pés me beija uma última vez e vai embora.

Entrando no meu quarto, mais uma vez sozinho, dispo-me das roupas e ao entrar no banho me livro das manchas que ela deixou em meu corpo. Minha mala já pronta espera aos pés da cama e durmo com o cheiro dela nos lençóis, prevendo o caos que a vida me reserva.

                                                                   Letícia Ribeiro  

domingo, 6 de outubro de 2013

estadia

Meu ser sorri feito criança com doce nas mãos, meus olhos não conseguem disfarçar a alegria e minha mente para, deixando o caminho livre para que você entre e bagunce livremente o que demorei um bocado de tempo concertando. Agora você voltou, Clara, chamando-me de “meu bem”, sussurrando as belezas que eu desconhecia e teu cheiro povoa meu quarto novamente, não me lembro o porquê de termos nos separado. Por que razão terá sido?

Dentro de você sou só mais uma canção que serve para povoar o coração inquieto de calmaria, logo você cansa e parte rumo às batidas frenéticas do mundão; dentro de mim você é a poesia indecifrável e eterna amante de voz doce, dentro de mim, meu bem, você é um canto de Camões, faz-me chorar de morder os lábios e amar de doer o coração. Mas você pode voltar, Clara, que eu te aceito sem desconfiança, pois sei que sua viagem não é tão sem rumo, tu volta para mim.

Nosso silencio é pura saudade.

Nossa saudade é apenas tolice. Abraço inutilmente seu corpo sadio em busca de moldá-lo ao meu, você não gosta porque tem medo de querer ficar presa nessa brincadeira de braços e abraços. Eu entendo: passarinho é bicho livre que precisa voar para sobreviver. Contento-me em alimentar meu Passarinho com amor, por vezes meu estômago se contorce, precisa ser alimentado também, pois eu como apenas as suas migalhas, mas teimo e continuo o maltratando. Comendo migalhas.

Estamos na primavera, o ventinho brinca com teus cabelos loiros e me embebeda do cheiro das flores, sorrio com tranquilidade – são tempos felizes, penso -, o céu de nuvens parece recitar os pensamentos do teu coração, olho para o teu rosto e encontro lágrimas; é chegada a hora de partir, não é? Aperto tuas mãos, beijo os nós dos dedos, faço que estou bem... Pode ir, Clara, breve você retorna para dormir em cima dos meus anseios.

Letícia Ribeiro

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

no enlaço do abraço

Beijos cálidos que me cingem
Embalam lembranças em minha Mente
Lançado ao passado agradável e contente
E cantigas agora soam no coração selvagem

Um abraço impassível
Arranca-me dolorosamente do sonho cândido
Meu corpo descobre, combalido
Que o Maldito aperto é incoercível

Fraco, ferido e frígido, em desvantagem
Como de uma anêmona uma presa sou
Toxina e tentáculos tem me paralisado

As Garras assaz finas depois de rasgado
O âmago, dilacerado os lábios, segue Viagem
Bebendo a dor e sorrindo do que de mim restou.

Letícia Ribeiro

eu

Tenho pensado – e escrito - muito sobre o tempo, para ser mais exata, sobre as horas e os minutos que tem sido o algoz da sociedade moderna, nem o bebê no útero tem liberdade, pois nasce com as horas contadas.
            Resolvi dar um basta neste assunto e seguir com minha viagem.

            A vida fora de casa sempre me pareceu libertadora, mas agora, beirando o fim da adolescência, intuo que essa seja uma realidade esmagadora; a cidade é a selva e somos tanto presas quanto caçadores, tentando sobreviver e prosperar. Vivemos tentando conseguir equilíbrio na linha que separa morte e vida - acabei de falar sobre vida. Que sei eu sobre a vida? Quiçá sobre morte! (risos). Aulas de filosofia durante 50 minutos não são de grande ajuda para desvendar sobre ambas quando houve mentes que criaram teorias durante séculos. Ai! Quem sou eu? Estou me descobrindo, creio que estarei nesta missão até o fim.

O medo que me assalta no despertar de cada manhã: como sobreviver à vida? Tento não chorar quando chego em casa, porque choro silencioso dói mais e não há travesseiro  macio o suficiente que consiga confortar, então penso que se fizer uma escolha errada, uma loucura que seja e não aguentar... Como quando meu peito aperta e não consigo puxar o ar para os pulmões. O mundo que criei com páginas de livros e sonhos está desmoronando.

“Deixamos de ser criança quando a razão nos paralisa, quando nos sentimos diretores do filme em que atuamos, olhos externos racionalizando cada gesto”, Humberto Gessinger sempre com a razão. Mas eu estou errada nesta vida. Um ser estranho perdido num mundo solitário.


domingo, 1 de setembro de 2013

the passing years will show

Confio em você.

Talvez sejam teus olhos, tão azuis quanto o céu diurno que me acalma, ou tua voz, meio rouca e o tom baixo com o qual você me fala. Pode ser porque sejamos parecidas, ou justamente por causa de nossas diferenças. Ai!, eu não sei o porquê, mas confio-me a ti. Não sei quantas vezes você disse que algo era tão estranho quanto eu e sorriu. Um elogio. Estranho é a atenção que me dá e o sentimento de indiferença que percebo ao mesmo tempo.

Há verdades a serem descobertas, eu sei bem onde estão escondidas e quero que me acompanhe, pois é você uma caçadora – andando atrás de borboletas e de amor, já vi – e eu apenas sou a navegadora, controlo o leme e brinco com a bússola, eu entendo de ventos e sei cozinhar. Vamos desenterrar corações em Pompéia, encontrar o peixinho Nemo e conhecer o seu Pequeno Príncipe!

Eu não consigo te entender, Céus!, e quem poderia? Mas, hey, as pessoas são loucas, o mundo é uma piada e nossos anos vão diminuindo a cada pôr do sol, chega de desenhar balões e flores em folhas de caderno e começar a adubar terra para um jardim e aprender física para construir nosso balão. Esqueça! Esqueça os números e os métodos, as regras e as exceções, que nos aventuremos em Pasárgada e lá andemos de bicicleta com Bandeira e o rei.

Quebrei o espelho do banheiro e lá estava eu, em pedaços, mil pedaços de mim espalhados pelo piso, irreparável, irreconhecível. Deixei de ser eu? Talvez, talvez... Joguei meus velhos pedaços no lixo e liguei para você:
 “Alô?”
“Olá! Dormiu bem?”
“Quem é?”
“Não sei”
“Letícia? Ah, sua idiota (risos)”
“É. Pode ser”
“Tudo bem?”
“Nã... Sim. Te ligo mais tarde, o rei tá me chamando.”
“Claro, diz pro Manuel que mandei um beijo!”

Por que te telefonei? Confio em você pois é tão estranha quanto eu.

Letícia Ribeiro


quinta-feira, 4 de julho de 2013

lua cheia

alma mortal
mundo irreal

olhos opacos
cabelos escassos

céu plúmbeo
mar profundo

brisa fria
as lágrimas seca

sorriso perdido
lua sem brilho

lobo uiva
pele pálida

dentes rasgam
e cor rubra

brota da pele
dentre árvores

gritos ecoam
a garoa cessa.

Letícia Ribeiro

outono

Cai mais uma folha
amarelada
caiu dançando
nos braços do vento
lalala
Lá vai ela
no swing natural
da vida na terra
que beleza!
A folha apaixonada
pelo toque do vento
que lindeza!
Ela dança
e rodopia e desvia
sem contar o tempo
Uma folha
beirando o fim
do inicio
do fim
Dançando branda
numa alegria
de não confim..

Letícia Ribeiro

domingo, 23 de junho de 2013

Procurando dar um suspiro aliviado

          Não posso fechar os olhos porque ardem, não consigo mais falar, pois a garganta está estourada e sinto que em breve não poderei escrever - para minha desgraça completa - os dedos não se dobram com a antiga agilidade. E esta vida que não consigo viver... Terá a paciência de esperar-me, querida? Eu que a troquei pela morte. Meus pensamentos presos à outra enquanto fingia viver você. Que loucura, que loucura! Aceitar-me-á outra vez?

          Eu quero viver! Se pudesse até voaria pelo mar azul pálido sentindo a pureza do ar desmanchar os nós do cabelo, gargalhar à vontade, chorar de alegria. Tenho medo de ser apenas um desejo inalcançável, meu peito se oprime, pois ele sabe e também sei eu a verdade: estamos condenados. Sentir medo do desconhecido, dormir e não querer acordar pela manhã, querer silêncio quando o mundo berra, paz quando a guerra se aproxima, desesperar ao perceber que o mundo corre ao passo que só preciso sentar e ver os pássaros voarem. Quero não ser metrópole, quero ser árvore, quero ser flor que dança com o vento, brisa que beija a lua.



     Preciso de ar, por favor, deem-me espaço!



          Não me conte sobre as horas, quero ouvir histórias do passado e cuidar de um jardim, deixem-me ouvir Wagner, e organizar meus livroa, escrever prosa e rabiscar poesias, sentar e apenas namorar o mar... Roubam-me o tempo e tiram toda noite as esperanças que trago em mim e enegrecem meu mundo sonhado.

Letícia Ribeiro

sexta-feira, 31 de maio de 2013

I was born to be blue

     Céu tem um gostinho doce e beija suave. Uns lábios rosados lindos que quando sorriem são uma carícia e quando fazem biquinho tem a forma de coração. Meu coração palpitando, dedos tamborilando no balcão e ela não parava de falar, não parava de me olhar, então eu toquei em sua mão, desenhando em seus dedos e traçando seu futuro nas linhas da palma da mão, levei aos lábios e a beijei. Nós rimos e pedimos mais uma rodada...

     Loucura minha.

     Ai de mim, Céu! Caso tivesse a feliz oportunidade de tocá-la em carne e osso, como a toco em meus sonhos e sentir a linda pele oliva arrepiar-se sob minhas mãos. Ai de ti, mulher! Por me fazer perder o controle assim. Penso em planos e propostas, mas a verdade é que não moverei um músculo, sou fraco, demasiadamente fraco para correr às ruas e revirar os becos à procura de alguém cujo nome não sei. Um covarde revivendo uma tarde com uma desconhecida em um bar vazio.

     Posso não conhecer o nome, mas desvendei a alma. Sei dizer que a cor dos olhos alardeava o céu e os cabelos negros moviam-se levemente quando Céu balançava a cabeça ou se punha a dar gargalhadas. Nunca uma tarde foi tão vivida! Senti como se conhecesse os trejeitos, risadas e gestos daquela mulher há anos, também senti que as horas esvaíam-se inadvertidamente. Tempo trapaceiro!

     Mas trago comigo uma lembrança pacata deixada nos lábios e outra acompanhada de um sorriso maroto que foi deixada no pescoço. Sinto que Céu será sempre a figura perfeita, endeusada em minha mente e, feito uma fita, nossas horas juntos será reprisada até meu coração morrer. Na hora mais pesada da noite acordo e conto os segundos asfixiantes do relógio, estes o maldito tempo não rouba e eu fico a meditar o quão delicioso seria morar naquele azul céu.

                                                                                         Letícia Ribeiro

sexta-feira, 10 de maio de 2013

domingo, 31 de março de 2013

sua escova de cabelo
sobre a cama
os fios dourados repousados
no travesseiro
seu perfume
na estante
e seu cheiro na camisa
acabou-se num instante
o telefone não toca
desde
desde
diabos!
desde semana passada
passado
quando você foi
passado
você está no passado
os beijos
as brigas
as transas
passado
quero morar no passado
porque cada passo
é caminho para um cadafalso
passado
um passo em falso
e somos passado

Letícia Ribeiro
     Sempre que fecho os olhos escuto a voz dela, sussurrante e inacreditavelmente fria. Fria como o vento numa madrugada de inverno, tão fria que machuca meus ouvidos e gela as mãos. Ela está em todos os lugares, em todo maldito canto dessa cidade imunda, vejo suas poses nos manequins do outro lado da vitrine, vejo seu sorriso no rosto grotesco da atendente do banco, confundo seus gemidos com os da minha amante, sinto seu perfume deixado no ar, feito gás tóxico, que me engasga e sufoca.

     Eu grito “porra, Clara!, sai de mim, mulher”, mas ela não ouve, permanece, continua me sondando e provocando. Memórias! São apenas lembranças... Algo em mim que não a deixa ir de vez, que está guardando cada gotinha do oceano que é Clara (ou era), isso é inútil, é desprezível e me apavora, pois pouco a pouco o tempo a devora e só restam visões embaçadas e mudas, como nos filmes de Chaplin. Seria cômico se não fosse trágico.

      Clara me consome.  Sinto-me velho e cansado, meus ossos rangem feito engrenagem velha. Clara está morta e agora é como se eu também estivesse – ela está presente, aqui comigo, e quer meu sangue. Ela me queima vivo em sua fogueira e dá gargalhada e dança como se meus gritos fossem música. É assim que Clara ama. Na dor.

Letícia Ribeiro

segunda-feira, 25 de março de 2013

Breve

      Cheiro de primavera recém chegada. Esse ar de flor que se abre depois de um longo inverno quando acorda. Mas só em alguns dias da semana– quintas e sábado, em especial. Nessas manhãs eu acordo cedinho para poder beijar-lhe os olhos. Castanhos e grandes. Ela sorri então se levanta e anda até o banheiro. Quando volta, já não é a mesma mulher que havia acordado ao meu lado e me dera um sorriso sonolento.

      Chego à conclusão: apaixono-me fácil, desapaixono-me rapidamente, mas não a deixo, pois certas manhãs ela me faz sentir o melhor sentimento que eu poderia conhecer. A paz de um céu azul e a tranqüilidade das nuvens, o toque de suas mãos como o sol das seis esquentando a pele, a maciez do cabelo entre minhas mãos – “deixa eu perder meus dedos nos teus cabelos”. Mas acaba.

      Às vezes fico à porta do banheiro. Observando a água escorrendo pelo seu corpo, levando o suor noturno - para o ralo a essência que brota de sonhos! Ela pega a toalha e não me sorri. Veste-se apressada. Não toma café da manhã em casa. Corre para a cidade acinzentada, odor repugnante de fumaça e… Acabou-se. Ela não me pertence, não é mais inspiradora de poesia nem digna de observação. Faz parte da massa. Faz parte da população absoluta, pesquisas sociais, dados estatísticos, some em meio a tantos Joãos e Marias.

      Amor que dura o tempo de uma rosa.

      Breve… como uma brisa gostosa que beija o rosto ao fim de um dia ruim.

      Aos sábados tomo-a para mim. Por um dia inteirinho – quando dou sorte, estendemos até o fim de domingo. Longe das buzinas, televisões, anúncios e desconhecidos. Então cheiro seus cabelos e sua pele… Exala sonho, essa mulher!

      Ela é o éter que me arremessa para outro mundo. Seus olhos piscam “SAÍDA DE EMERGÊNCIA” e eu mergulho no que quer que seja feito esse mar que é amá-la.

      Letícia Ribeiro

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

20 de janeiro









                                     


domingo, 20 de janeiro de 2013

Nem elas nem você

Oh, darling

                 Ela umedeceu os lábios, como quando se preparava para falar, mas não me retrucou, o momento se resumiu aos seus olhos fixos em mim. Negros olhos oblongos cheios de reprovação que atingiram até as minhas vísceras, não sustentei o olhar mais que uns segundos e fracassei em dizer qualquer coisa, balbuciando um “des... desculpe-me”. E tremia. Nenhuma palavra foi dita: eu fui incapaz e ela sabia o efeito que seu olhar causava.  Ela estava decepcionada e eu tinha acabado de ser fuzilado. Ambos fomos impiedosos.

If you leave me

                Fui embora, claro. Incapaz e acovardado fugi da presença daquela mulher que no momento me deixou feito um cão esganiçado. Uma mulher incrível, apesar de agora não me recordar muito bem de seu nome, algo com o som de “i”. Alicia. Clarissa. Cecília. Ou Marília? O vento frio, do lado de fora do quarto que fizemos amor pela primeira vez, sibilava, um sopro triste e torturado, mas naquele momento, para nós, tudo era fogo, vermelho e crepitante. Eu não sabia -idiota como era - que o fogo é capaz de derreter o que quer que esteja ao seu alcance. Foi o que ele nos fez.

I’ll never make it alone

                Como o fogo, tudo correu rapidamente. Duas semanas depois da primeira transa disse que a amava, ela nada respondeu e continuou a me observar enquanto me vestia, quando eu finalmente abri a porta ela correu para fechá-la a me beijar e arrancar a camisa soltando os botões, depois do orgasmo sussurrou vagarosamente com sua voz de seda “acho que também amo você”. Esse pode ter sido nosso começo ou fim, talvez ambos, mas agora, pensando bem, pode-se dizer que foi a melhor manhã que já tive.  

Believe me when I beg you

Eu era carne podre. Sem rumo. Sem jeito. Não comia, só bebia. Preferia prostitutas por não serem exigentes e por sussurrarem mentiras insidiosas e obscenas, estava pronto para morrer. Até que a vi olhando para mim, sentada sozinha no bar, só vi ébano e sorriso, nada mais. Paguei-lhe uma dose de vodka com red bull e bebi para acompanhar. Não terminamos aquela noite na cama. Fizemos amor 27 dias depois dessa dose.

Don’t ever leave alone

                Hoje não bebo mais vodka e tampouco durmo com prostitutas. Achei ter encontrado forma melhor de me matar. Quem diria?  Morrer de amor. Fugir desse torpor embriagado e drogado para cair nos braços de uma mulher com um espírito saboroso. Mas o “fogo” incendiou a casa toda e nos deixou desabrigados. Eu sou o culpado, por ter deixado a vela acesa próxima demais das cortinas - metáfora ínfima para o que aconteceu, a verdade do que fiz é uma lembrança tão borrada e falha que me aborreço ao tentar lembrar, há algo em minha cabeça que me sentencia culpado. Culpado. Culpado! Não tento negar nada, mas também não sei o que fiz. E faltou coragem de perguntar a ela o quão cretino fui. O pior do “morrer de amor” é que continuo vivo.

                                                                                                                           Letícia Ribeiro

sábado, 19 de janeiro de 2013

perdida


Fiquei de cama por semanas quando, por fim, o médico veio e seu diagnóstico foi: saudade, o mal do amor.
Bem, ele estava certo, certíssimo, assumo todos os clichês de gente apaixonada, as músicas melancólicas que soavam pelo quarto e poesias piegas no meu caderno, cartas sem destino, fotos no quadro e, claro, lágrimas queimando os olhos.
Eu era um caso perdido.

Letícia Ribeiro

fuga


Saí do meu quarto na ponta dos pés, fui andando quietinha em direção a cozinha. O relógio da sala fazia TIC TAC. Abri a geladeira e peguei um pote de sorvete de limão, fui para a sala e abri um livro que estava em cima da mesa, um romance, mas eu queria ação. Fechei o livro e liguei a televisão, é claro que não tinha nada de interessante, já passava das 2 horas da manhã e meu sorvete estava quase ao fim. Bom, pelo menos agora minhas pálpebras estavam pesadas e minha cabeça pendia para trás, dormi ali mesmo no sofá.

Acordei parece que 20 minutos depois, meu corpo todo doía, estava zonza, meio aturdida. A casa estava tão escura, silenciosa, nem o relógio com seu TIC TAC pude ouvir, de repente começou a cair pedras no telhado. Não, não eram pedras, chovia granizo e ventava forte, acho que ouvi gritos lá fora, fui abrir a porta, meio indecisa ou era medo do que ia acabar vendo lá fora. Destranquei a porta e abri. Fiquei meio estarrecida, sem saber se voltava para dentro ou corria para fora. Achei estar delirando, pois não havia chuva, nem terra molhada ou vento, mas sim um sol que ofuscou meus olhos, o céu estava tão azul – um azul que nunca vira antes – cores e pessoas estranhas de rostos sorridentes, cantantes. Que estaria havendo? Festa.

Eu podia sentir a vibração deles, estavam felizes, de verdade, me pegaram pelas mãos e me levaram para o meio do jardim, todos me olhavam ansiosos, esperavam por algo. Mas o que? Não fazia ideia se aquilo era em minha casa mesmo, um medo súbito veio crescendo dentro de mim, me apavorei, arregalei os olhos e tentei fugir, não importava para onde, mas eu tentava me esconder. Senti alguém tocar meu braço e me chamar, não distingui pela voz, mas foi como se eu pudesse confiar naquela pessoa, eu tinha que sair dali. Segui a pessoa – na verdade, era um homem, cabelos castanhos e pareceu ser seguro do que fazia – íamos nos esquivando das pessoas e corremos pela rua, o sol já tinha ido embora, agora só restavam alguns raios de luz e a iluminação fraca dos postes. Nos escondemos atrás de um muro, na quarta quadra que corremos, estava tudo em silêncio. Ele parou de vigiar a rua e olhou para mim, nos meus olhos e descendo para os lábios, estava sério. Disse num sussurro: “Não deveria estar aqui. Venha, vou te levar para casa.” Admito que fiquei pensativa quanto ir para casa, apesar do susto eu queria ficar por lá, com ele. 
- Mas se eu for, nos veremos de novo? - perguntei
- Um dia a gente se encontra, nem precisa se procurar, eu te encontro – ele disse se afastando, seus dedos se desenrolando dos meus.
As luzes se apagaram e cai sem forças no chão, tentei gritar, mas não tinha voz. Apaguei. “Acorde, Rox, acorde!” escutei a voz de minha irmã. “Estamos atrasadas”. Estava deitada no sofá, então eu levantei, eram 7h. Era um sonho.

Me arrumei como todos os dias e fui para minha aula. Quando saí tive vontade de andar um pouco antes de voltar para casa, fiquei parada na banca de jornal enquanto esperava o ônibus chegar, estava cantarolando a canção que ouvi no sonho. O rapaz da banca parou o que fazia e olhava para mim com surpresa. 
- Desculpe... eu te conheço? – perguntou
Eu levantei o olhar e sorri feliz ao reconhecer aquela expressão, respondi "Só se for no mundo dos sonhos".
Ele soltou uma gargalhada e veio até mim, pegou minhas mãos e perguntou:
- Quer fugir daqui?

Letícia Ribeiro

respire



Neva. Neva em mim.


O gelo cobre a janela, mas aqui dentro a lareira nos esquenta. Mamãe está a dormir, dou graças a isso, ela não sente tanta dor quando submersa em sonhos. Oh, mamãe! Estamos as duas afastadas, a uma distância que a insanidade nos impôs, isso não merece ser chamado de vida, uma pessoa sempre ativa e agora é limitada a camisa de força, sendo chamada de louca.


Enquanto escrevo, mamãe ressona tranquila – normal eu diria até. Ontem ela me perguntou quem eu era. “Ora, sou Rox, sua filha”, respondi. “Tome tento, louca. Tens minha idade” respondeu e saiu empertigada. Mas hoje, para grande alegria, ela amanheceu e foi para as suas rosas no jardim, cantarolava e sorria, conversava com as rosas e me olhava maviosa. Céus!, como fiquei feliz. Sentei e admirei-a, como se estivéssemos de volta aos meu dez anos de idade, com mamãe e papai rindo de mim e das tagarelices sem sentido algum.


O sol se pôs, naturalmente, e como foi egoísta, levou minhas lembranças e a calma de minha velha mãe, foi terrível presenciar a matança da vida – dela e do jardim, agora em pedaços – mamãe simplesmente endureceu e uma sombra desceu sobre seus olhos, gritou para mim, para as flores, pisoteou-as e praguejou a mim. Tirou as roupas e correu para longe. Só fui encontrá-la quando a noite só se fazia clara pela lua, ela estava deitada no chão batido, onde papai fora enterrado, lá ela conversava com ele, chorava por ele. Triste de se ver. Quando a trouxe para casa estava exausta e logo dormiu.


Agora a neve cai, pela primeira vez nesse ano, como a vida é rápida, não espera por ninguém, ou se vive ou morre, sem nada a ter realizado de fato, de sonhos perdidos. Morremos e continuamos a respirar, sem tomar conta da cova que está a dois passos de distância, da terra que clama por consumir teu corpo sofrido, a mesma terra que nos comerá a carne e esse coração insípido. Céus! Pobre de quem ri agora e chora só. Pobre de quem respira e não vive.


Neva dentro de mim.


Letícia Ribeiro

vento


Ele passa e te leva junto,
me deixando só
ora sorrindo, ora chorando;
sorrio porque esteve aqui,
choro porque deixou a mim.
Ah, sim, é suave e leve
não o vejo,
mas sinto seu beijo
úmido em mim,
sei que está a me cercar, a me maltratar, a me limpar.
Sonda daqui
suspira dali
Bate em minha face com edacidade
Só para depois poder beijar a boca com maviosidade
Ele volta
e te traz
E deixa cheiro de quem logo vai partir
O vento sossega
quando de mim a vida se esvair

Letícia Ribeiro

em casa


Parei de frente ao portão. Suspirei lentamente. Tive medo de entrar, medo do que iria encontrar. Imagens loucas me vieram à mente, a ilusão estava me torturando impiedosamente, mais do que o habitual. Senti de súbito um pavor que fez estremecer meu corpo inteiro, uma sensação de perda, eu “cai na real”, já não conseguia (ou não podia) negar a realidade. O tempo passa, a vida corre e ninguém pode fugir, ninguém pode negar.

Enchi-me de coragem e empurrei o portão, estava aberto e espiei pela fresta, havia algumas roupas úmidas no varal, a varanda estava molhada, parecia ter alguém na cozinha – o vento trazia de lá um cheirinho gostoso de bolo de fubá. Bolo de fubá! Abri o portão de vez, entrei e fiquei tão contente. Na lateral esquerda do muro o canteiro do jardim permanecia em perfeito estado, as rosas vermelhas entravam em contraste com os lírios brancos, e as cores pareciam estar em harmonia com o ambiente.

Chamei com meia esperança mantendo a voz: “Mamãe? Está ai?” Esperei uns minutos. Nada. Repeti, dessa vez gritando. Ouvi a porta da cozinha se abrir, um sorriso se fez em meu rosto, ela está aqui, pensei, foi só um longo pesadelo, um longo pesadelo. Por detrás da casa surgiu a figura de uma mulher negra sorridente, ela vinha em minha direção com os braços abertos, dizia que sentia a minha falta e que eu estava crescida. Era minha Mariana, trabalhava para mamãe e cuidava de mim há muitos anos. Olhei para ela meio confusa, perguntei: “Onde está mamãe? Quero vê-la. Tive um pesadelo (eu acho) e quero muito vê-la”. Mariana me olhou meio desconfiada, pôs a mão no meu ombro e disse: “Roxi querida, não foi um pesadelo. Sei que é difícil, mas você tem que aceitar, é melhor para você.”

Diante daquelas palavras senti minhas pernas bambearem e minha vista embaçada, senti meu corpo cair ao chão, minha voz não saia e, por mais sem noção que estava, eu chorei com soluços cortando a respiração. Não foi um pesadelo. A vida a tirou de mim. Estava desprotegida. Mamãe se fora. Estava morta. Mariana me pegou pelo braço e me levou para o banco debaixo do pé de laranjeira, me trouxe um copo de água e açúcar. Ela me olhava com um ar de preocupada e até mencionou em me levar ao médico, mas percebeu, graças a Deus!, que seria até pior. Eu tinha acabado de saber que minha mãe tinha morrido, a ficha demorara cair, foi como se a notícia fora me contada agora.

Mariana, minha querida Mari, me abraçou e esperou meus sentidos voltarem ao lugar. Olhou no fundo meus olhos e disse, com uma veemência que me prenderam a atenção: “Sabe, a vida não tem fim. Está sempre renascendo e aprendendo. Sua mãe tem o espírito vivo, ela ama você e está sempre cuidando. Não chore mais, menina, viva por ela.” As palavras dela soaram feito canto em meus ouvidos, me fez sentir leve, parei de chorar e limpei o rosto, abracei Mariana e sorri. Ela me chamou para entrar e me deu um pedaço do bolo, disse que era para comer, que eu precisaria de forças para cuidar do jardim de mamãe - que agora pertencia a mim.

Letícia Ribeiro

velho


O sol reservou um tempo para pensar e deixou o frio tomar conta, o vento gélido que sopra mais forte à noite me corta e estapeia, esses velhos ossos doem e já estou a bater os dentes. Os anos pesaram sobre mim e agora sou um velho carente que se esquenta com sopa e cobertas, mas, o que dizer, eu bebi o que pude, fodi com quem quis e vou morrer com o cigarro na boca.

Vinte e quatro anos atrás, quando jovem, caí na besteira de me apaixonar. Sorrir por lembrar a voz dela era tão… tão novo e ridículo que gostei. Gostei de sentir ciúmes, de provocar para briga e depois acabar com a raiva dela na cama – ela era boa nisso. Admito, não imaginava como seria viver sem beijar aquela boca, mas, bem, eu devo ter sufocado ela ou não era tão bom de cama, pois, chegar em casa e ver a mulher que você ama na cama com um modelo de comercial de cuecas é, no mínimo, uma puta de visão do inferno. Mas não sou violento, tranquei – não sei como – os dois para fora do apartamento, nuelos, no frio e fui beber.


Segunda pior cagada que cometi – a primeira foi querer bem aquela puta – enchi a cara e fodi com todas que me abriram as pernas. Fiquei nessa vida por oito anos, eu era bonito, rico e não muito seletivo, mas não se pode ter tudo. As drogas acabaram com meu dinheiro e minha profissão, eu estava insano, as toxinas mancharam minha beleza e virei um comedor de lixo. Que vida! Sucumbi nos vícios e adoeci terrivelmente. AIDS! Me passaram a puta de uma AIDS. Minha família me trancou nessa clínica de reabilitação, onde moro há alguns anos. Curado de umas drogas, dependente de outras. Para quê? Não tem cura.


Esse papel é um maldito papel de pão, e uso uma caneta falha, não tem importância, é um aviso e deve ser lido. Vou indo embora, odeio esse quarto velho e a cama range sempre que me viro, sinto falta das mulheres, dos jogos de cartas, sinto falta da mulher que amei. Comprei uma passagem para uma cidade que não conheço ninguém, chegando lá compro umas camisinhas na farmácia e alugo um quarto, com o dinheiro que roubei da caixinha de vocês vou fumar, beber e transar. Quando nada mais restar, bem, eu morro sozinho, nu na banheira.



Letícia Ribeiro

noite 2


Sonhei.


Ou foi só um delírio louco, um doce delírio, um delírio de desejo… Sombras dançaram no meu quarto à noite, marcaram meu corpo, tocaram a pele e queimaram.

Uma sombra subiu na cama, me olhava com olhos escuros e frios – brilhava! – trazia um sorriso trocista e descarado e suas mãos me tocaram, eram frias e seguiam as linhas do meu corpo, trouxe a boca para mais perto e sussurrou um lamento, uma libido me consumiu e comprimiu, me fez ruir, caí nas fendas daquele negrume de um amor vil, vão, a sua sombra veio me visitar noite passada, me matou e fugiu. Só lembro os olhos me desnudando e dedos rompendo os botões da camisa, um rastro quente de beijos que de cima a baixo seguido de mordidas desenharam as curvas do meu corpo.
Quando a noite perdeu seu escuro, você saltou de mim e correu, nem um beijo ou suspiro, só um amor mal dado e roxos por todo o corpo.


Noite passada sonhei com você. 




Letícia Ribeiro

voz


“A escuridão caiu e a lua sem brilho minguava lá no alto, enquanto a brisa vinha na tentativa de secar as lágrimas do pobre cantor sem voz que virou noites velando por uma alma perdida, essa alma agora vagueia na própria dor, sentindo as dores que causou, ouvindo o silêncio que a estapeava. Ao fim do décimo sexto dia, o rouco ouviu o ciciar do vento ao pé do ouvido – trazia um recado da alma; o “amor” de quem sonha e chora por ele. Os ventos, assim como o mar, furiosos e devastadores se apiedaram do grilo verde, o esperançoso, e segredam algumas noites, um beijo ou um abraço que alma lhe mandava.”

O cantor se arrepia.


Me foi cantada essa canção n'uma taberna qualquer, entre uma cidade e outra, beirando o fim do mundo. Pedi ao tocador-contista que terminasse a história, mas ele balançou a cabeça em negativa: “Não há o que cantar. Provável que o grilo tenha morrido de frio ou apenas desistiu”. Diante dele pareci conformada e subi ao quarto para dormir e voltar para casa na manhã seguinte, quando o ocaso tornou-se apenas negrume e o sono me abateu, sonhei...


Ainda não anoitecera totalmente e o céu se coloria ao pôr do sol, no topo de um morro eu o vi com um violino nas mãos fazendo serenata para a lua prateada, cheguei mais perto me escondendo atrás da maior árvore que encontrei e vi seus olhos; vi dor, vi paixão; vi o medo. O corpo descarnado era frágil e as mãos tremiam, o esqueleto oscilava com as lufadas do vento noturno, os pés pregados firmes ao chão e seus lábios descorados mexiam jorrando palavras intraduzíveis. Oh, a ele faltava voz para implorar aos deuses um pouco de comiseração, um aperto me deu no coração.
Pisei num galho seco e ele se virou para o lado, semicerrou os olhos se pondo a andar em minha direção, passos lentos, calculados… Pôs a mão em meu pulso e me puxou a luz do luar, seus dedos se enroscaram firmes me pressionando e de olhos arregalados sussurrou:

“Marisa! Que os deuses sejam bons. É tu mesmo, Marisa”


Esmaeceu em meus braços, dos olhos do cantor lágrimas se libertaram e logo esse perdeu a cor.


Letícia Ribeiro

madrugada



A cor de arco-íris fez melodias soarem por seus ouvidos, um som para cada filete de coloração caída no carpete do pequeno cômodo, verde, acalma; a amarela é eufórica; mas o vermelho… o vermelho a machucou, sangrava feio pelo braço, escorria gotículas de si, não tinha comedimento.


Buscou alívio – não entendo como esse ato poderia revelar-se um curandeiro – e o que ganhou foram cores de uma gota vermelha e lágrima, cores essas que a fascinaram e a prenderam  com tamanha embriaguez, fez cativa sua alma.Seu corpo espalhado pelo, cansado, fascinado, úbere, não tinha frio mais tremia, temia, mas queria embeber-se e morrer com o peito sarapintado –  morreria contente assim. Ora, seria indolor fechar os olhos e morrer com um som multicolor. Ora, depois de morrer, se é que teria algo além, seria belo e colorido? 


Fraca, desmaiou. Ao acordar tinhas roupas e braços sujos de sangue seco, o chão escuro, a cabeça pesada, o quarto sussurrava, a janela fazia barulho… Mas nada disso tinha cor, ou era branco ou era preto – disso já bastavam os cabelos embaraçados, os pequenos olhos negros e a pele branca como leite, era feia, de fato, e sabia – O desespero tomou conta, lançou-se para a porta, caminhando para a sala, em seguida para a cozinha – a essa altura devo dizer que nossa personagem estava sozinha em casa, a madrugada estava em sua terceira hora – ouviu um barulho abafado vindo de fora, abriu a porta e só viu negrume, girou nos calcanhares… 


… Sentiu uma pressão nos ombros e um puxão de cabelo e um frio, um frio diferente. Percebeu derramar algo quente pela garganta, escorrendo para os pequenos seios, levou a mão ao líquido e voltou-a vermelha para a luz dos olhos. Vermelho escarlate ondulava transformava-se em um abalar de sinos distante, sorriu colorida e fechou vagarosa a pálpebra – convenhamos leitor, algo lhe foi dado, não tirado. Um ladrão apareceu e cortou-lhe a garganta, entrou na casa e levou o que lhe interessava, foi embora e nada lhe incomodou.


Fez-se o que queria – como um sonho – tudo e mais que imaginara e desejara aconteceu, depois de desfalecer nos braços do ladrão, um lugar de beleza indizível a acolheu, viveu no seio do arco-íris, dançou sobre as nascentes, conheceu gente diferente. Oh, como se lá vivesse há anos. O coração parou e as cores pereceram diante dos olhos, fechou os olhos languidamente, ao voltar a abri-los enxergou branco, o pescoço dolorido, um cheiro de… (que cheiro era aquele, meu Deus?). Na maca de um hospital. Descolorida, sem vida. Um corte raso no pescoço. Lágrimas queimaram a cicatriz.


Letícia Ribeiro

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

noite (1)

Teve cantoria no meu quarto, criaturas quiméricas se desgrudaram das paredes da minha razão e criaram vida própria, elas não me perturbam, apenas me tiram o sono, são partes que dissimulei e guardei; loucura, maldade, vileza… Me atormenta mais do que a sombra que não é minha, da sombra que está amarrada a meu pé, essa sombra que está comigo e que não me pertence. Fiz grades, isolei, afastei, implorei, chorei, tudo em vão, o que estava restrito em imaginações passou a ser real, acordando quando deito a cabeça no travesseiro e me fazendo feliz – nem sempre, na verdade, sempre me deixa mal. A princípio, gozei da idéia, me deliciei das madrugadas, nessa relação de pique esconde tinha algo novo; você. Esse amor é um malquerer que bem quero e desejo, mas, veja, está real por demais, no espelho encontro marcas de mãos e mordidas, meus braços, minhas pernas e costas doem do teu amor, com isso posso viver, todavia, acordar sozinha numa cama que foi bagunçada por dois acaba comigo.

Letícia Ribeiro

Em mim.



                   Nos perdemos no deserto, Rayssa, você nos trouxe para essas dunas quentes de chão árido e agora não sabe como sair. Agora completa quatro horas que estamos caminhando a esmo sem dirigir palavra à outra - orgulho teu, todo teu! -, chegamos noite passada e ficamos bem até pela manhã, quando eu te disse que tinha uma vida para tocar você fechou a cara e se pôs a caminhar, te segui, cansada, com fome e sede, te segui para todo canto que seus passos escolhiam.


                O sol se escondeu e o ocaso se aproximava quando você girou nos calcanhares e olhou para mim mordendo os lábios “Eu… não sei como”. Evitei rir e jogar na sua cara o que, no fundo, já sabia, apenas continuei caminhando, procurando água ou uma árvore ou uma porta de saída de emergência – melhor, um mapa de tudo!


              O deserto enegreceu, um céu de estrelas e lua minguante sobre nossas cabeças, o frio que chegou e ficou, víamos sombras aos redores e sons mais ao longe – murmúrios, na verdade, que chegavam e iam embora – cenas terrificantes, reais, nossos conhecidos com personagens e gargalhadas guturais… Não dormimos nem meia hora, ficamos abraçadas esperando o sol chegar.


                Ah, Rayssa, a meu ver não tem saída alguma, entramos pelas frestas e não será por elas que sairemos. Eu me lembro dos argumentos que usou para me convencer, disse “Eu vou saber como sair, quando você disser ‘chega’, nós sairemos de lá”. Como não rir dessas conversas? Olhe como estamos! Eu bem que te avisei que não seria muito agradável, mas você quis porque quis entrar no meu âmago, “ver o que tinha por lá” – pensou que haveria poesia, mulher?!


               Vamos morrer aqui, dentro de mim, juntas.


Letícia Ribeiro

amor?



O tilintar das sinetas da pulseira de Ellen soavam cada vez que levava a mão a ajeitar o cabelo, estes eram castanhos escuros e macios, o sol bronzeava sua pele e corava as maçãs do rosto, “eu tenho um plano” ela dizia.
 - Ah, sim? Conte-me – ela sorriu diante da minha pergunta, olhou para o longe e disse:
 - Ainda tenho que descobrir.
Assim era Ellen, sabia e não sabia, tinha planos e rotinas, assim sempre foi, tinha os lábios mais lindos que já vi, mas não sorria – não para mim – sua voz também já não é a mesma, as poucas palavras que me permite soam baixas e cansadas… Ah, Ellen, “quando ela fala parece que a voz da brisa se cala”, só que ela já não fala, só olha, apenas um olhar compungindo e a entendo, a menos penso que sim, e não é bom o que vejo, não é.
“Quando ela fala, quando ela fala…” Eu me calava e a escutava. Sabe de tudo essa Ellen! Um dia me atrevo, juro que sim, puxo ela num canto qualquer, arrasto para um morro, a tranco dentro de um quarto e pergunto:
 - E o amor, Ellen, onde está? “Está com ele” ouço sua voz responder.

Letícia Ribeiro

prisioneiro


       Outro mundo…  Rox me criou um novo mundo, as paredes tinham o tom da sua pele e o cheiro da colônia dela impregnou meu ar, o chão onde eu pisava era feito por ela assim como as horas e os astros do céu eram controlados conforme seus desejos. Tudo aquilo pertencia a ela e eu, um simples consorte aventureiro… um passageiro atrevido – estive mais para um perdido.
       Aquela mulher vermelha abriu seus braços e me acolheu em seu seio, fez de mim seu novo brinquedo, apertou as mãos em volta da minha garganta, enroscou os dedos nas cordas vocais e transformou toda fala em sussurro. “Ainda é madrugada” Rox sempre falava “e ainda não estou cansada”. Era garbosa, isso afirmo, mas eu via o brilho daqueles olhos quando a luz do sol da manhã batia no seu rosto e os risos que soltava aparentemente sem motivo.
        Passadas três semanas pedia para morrer, mas a mulher vermelha me detinha para saciar seu prazer, estava fatigado, magro e desesperado. Roxanne não me concederia um pingo de bondade, sou um sujeito de brio, sabe, juntei minhas roupas e no amanhecer do 28º dia e corri chorando liberdade. 

Letícia Ribeiro

Clara.



Clara, tola!

Seu sorriso meloso e esses grandes olhos castanhos me perturbam. Durmo imaginando suas mãos e acordo ao som de sua voz, seus pés vagam por aí e você embala os quadris ao balanço do vento e se engata num rebolado. Clara, sacana. Espero ligações na escura madrugada, um toque da campainha e você na porta, adormeço sobre a esperança.

Clara, meu bem!
Clara, sua boca. Mordendo os lábios, vermelhos e molhados, assim me gritam os pecados, ah, Clara… As noites me engolem, não durmo nunca, sua sombra me tenta, me faz lembrar como foi antes, do que minhas noites eram feitas. Clara, a ladra. Sonho com você, quase tudo se encaixa, mas o galo canta (ou era o canto do rouxinol?) e acordo molhada.

Clara, sua descarada. Me diz “oi” como se não houvesse nada, sei que chamas percorrem pelo teu corpo e beijam sua pele clara, não tente negar nada, senão se engasga. Clara, ingrata. Distorce meu âmago com palavras gentis, a realidade te contradiz, eu tenho marcas, mas não são de todo ruins (eu amo seu jeito de amar).

Entendo você ter partido. Mas não perdoo sua maldade. Clara, a perversa. Foi embora sem dizer que não me ama mais e me agarro na possibilidade de você ainda querer voltar, agora remoo nossas conversas e imagino seus lábios roçando em outros, você não vai embora de vez, deixou pegadas no chão e o xampu no banheiro. Clara, sua safada. Encontrei fotografias suas dentro de algumas caixas. Isso não foi certo (ainda não o é). Mas eu amo até do gosto amargo do seu abandono.

Letícia Ribeiro

ah!



            Nesses dias quentes, sento-me na varanda de casa e observo meus netos com suas vidinhas cibernéticas, são felizes em suas próprias concepções de felicidade, claro. O engraçado é que quando lhes conto da minha infância – com ares saudosistas, ah, “saudades que tenho da aurora da minha vida” – as crianças me lançam olhares incrédulos, curiosos e maravilhados, atrevo-me a dizer, como se minhas peripécias infantis fossem aventuras lidas de um livro. Veja só, leitor, a graça está no fato de elas adorarem meus causos, mas ainda assim se limitarem a tela digital – entramos em um paradoxo, não?           Imagino-os alguns anos mais a frente odiando a relação familiar – e o mundo – as garotas chorando por paixões e os rapazes com um olho roxo por causa de brigas na rua. Será que vou viver para poder dar conselhos (que serão ignorados) a eles? Por mais que eu lhes diga que o que eles chamam de amor seja… Oh, talvez seja mesmo amor, mas pode ser só gostar (sim, sim, é um sentimento novo que parece consumir e queimar a cândida pele deles, mas amor não é).

            Por favor, quando você chegar à velhice terá muito tempo a sós com seus pensamentos e “cabeça vazia, oficina do diabo”, verá como a mente transborda na letargia em que a velhice nos põe, os conceitos pesam e é o maldito amor que nos inferniza nesse labirinto implacável e enfado.          Aliás, (aproveitando o embalo vou desabafar) não sinto prazer nenhum em olhar para minha Isaura, nenhum. Eu a amei há dezoito anos, doía-me não a olhar e parecia que mesmo fazendo amor eu nunca estaria perto dela o suficiente, como se ainda não fosse o suficiente para… para… ah, não sei. Sentia-me incapaz de amá-la (risos). Quando eu dizia que estava na minha hora de ir, ela me agarrava as duas mãos “fica até o sol despontar, Armando, fica para amar-me mais um pouco”, e eu ficava, perdia a hora, o equilíbrio e minha camisa exalava perfume de sândalo após partir.            
            Não, amigo leitor, não pare de ler, não serei melancólico nem contarei casos de amor, é uma reflexão minha apenas. O amor… bem, você o conhecerá por si só e tirará suas próprias conclusões; loucura, luxúria, não importa, qualquer outro tentará lhe mostrar isso – como se fossem capazes, cada qual sente em intensidades diferentes, somos excêntricos, credo! Perdão – veja como o amor nos retém para si – não me demorarei mais nesse parágrafo, se você se sentir enjoado, levante-se e vomite, pois é o que fazemos com o amor, com a decepção, solidão, a raiva; vomitamos, mijamos, cagamos aquilo que nos mata (expelimos o veneno).          
            Ah, por Deus! Isaura desempacotou o toca discos e agora toca “The Monkes” e ela se aproxima sorrindo, balançando o vestido e me chamando (estará ela louca?). “Largue essa caderno, homem!”, ela me chama a atenção, “Isaura, meu bem, não.” Ela sorri compassivamente, “Tenho certeza de que você ainda sabe dançar, meu amor, vem” e me estende as mãos. Não me odeie nesse momento, amigo leitor, mas eu sou humano e não pude me calar ao responder-lhe “Isaura, eu não te amo mais”, assim saíram essas palavras, de forma indolente feito flechas – e acertaram o coração de minha Isaura. Doeu em mim, quando me apercebi, mas não mais do que nela, seu sorriso incrédulo e o aperto que ela me dava nas mãos ficou suave até que ela largasse e os olhos se fecharam e voltaram a abrir me virando as costas ela se foi – senti ódio de mim ao perceber que ela enxugava lágrimas.            
            Ela não me mandou nem quis ir embora. Ela… ela… continuou vivendo, sabia que não havia como começar vida nova e encontrar alguém que não fosse intratável como eu. Quebrei os juramentos que fiz para mim quando jovem, nunca ser as lágrimas que ela derramasse (risos), oh! Quem sou eu para falar da vida? Eu que prometi ao leitor que essas não seriam linhas melancólicas.    

Letícia Ribeiro, descumprindo a promessa de não ser spleen e escrever sobre amor

     

Lembranças


A casa está velha e suja, a cada passo que dou o piso de madeira range. É estranho estar aqui mais uma vez, nunca pensei que voltaria a ficar sob este teto novamente, chega a ser incômodo entrar aqui dentro, acho que estou perdendo os sentidos… O ar está pesado.

- Você está bem, Roxi?


- Claro que não! Olhe só para isso, veja como o tempo passa e leva junto parte de nós.


- Ah, meu bem – ele suspira - Isso acontece quando não fincamos raízes, quando deixamos. Não fique assim, você mesma disse esse lugar lhe traz lembranças ruins. Bom mesmo seria esquecê-las.


Assim disse meu noivo me puxando pelo braço para fora da casa quando eu iria replicar, mas desisti, ele não entenderia. Mesmo ruins, as lembranças fazem parte de quem eu sou, não devo me desfazer delas. Nunca.


Letícia Ribeiro

Anêmona


As brumas impediam a visão
seus olhos lacrimejavam
Os pés seguiam caminho sem significação

Para longe, ele sabia

Quão mais adiante?, se perguntava
Sua pele suada, marcada e esfolada, gritava

Correra para chegar até ali

Pensara em desistir
Voltar e implorar

Implorar à ela que o coadunou a suas perversões

Roxanne de lábios avermelhados
e rosto impenetrável

A Senhora a qual pertencia

que como uma anêmona atraiu e o envenenou
Sua Pústula algoz

Coração atroz

Eh!, vida de Cão
Pulsava nas veias o veneno feroz

Seguia o caminho de volta

consciência aos gritos
Peito em júbilo

Letícia Ribeiro